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Meu último Marlboro

Joe abria e fechava seu isqueiro de prata lisa enegrecida. Abria-o com um movimento do punho, olhava a chama com interesse quase científico e o fechava empurrando a tampa com o polegar.

Mac, que o acompanhava há anos fechando bares nas noites cansadas, acendeu um cigarro com um fósforo da caixinha que pediu ao dono do bar. Nunca havia pedido o isqueiro de Joe pois desconfiava que ele não o emprestaria. Deu uma boa tragada no cigarro, tomou um gole do seu scoth com gelo, pôs o copo na mesa e continuou o assunto:

— Ainda não acredito que você parou de fumar, Joe.

— Se você tivesse visto o que eu vi, você também pararia.

— O que aconteceu?

— Esqueça.

— O que você viu que te fez largar um vício de 17 anos?

— Você não acreditaria.

— Tente! Esse já é meu sétimo scoth hoje. Eu não ofereço resistência a nenhuma informação a essa hora da noite. Tente!

Joe foi diminuindo a velocidade do abrir e fechar do isqueiro de prata, pensando, até fechá-lo uma última vez e colocá-lo sobre a mesa, junto do seu bourbon.

— Ok.

— Maravilha.

— Você se lembra do que me disse sobre a Travessa do Gato Cego?

— “Mantenha-se a pelo menos três quadras de distância dela.”

— Exatamente. Bom, eu ouvi seu conselho, mas não obedeci completamente.

— Ah, merda… O que você fez, Joe?!

— Há umas duas semanas, quando você ainda tava viajando, eu fiquei muito deprimido uma noite e saí pra dar uma volta na rua. E cheguei mais perto do que deveria daquela rua sem saída.

— QUANTO mais perto?

— Eu entrei nela, Mac.

— Não acredito…

O cigarro se apagou esquecido entre os dedos de Mac e ele acendeu mais um fósforo e tragou um bocado até avivar novamente a chama. Seu rosto parecia um talo de palmito num vidro de conserva.

— Eu falei que você não ia acreditar.

— Não, não… Pelo amor de deus, Joe. Agora eu quero saber o que aconteceu. Fizeram alguma coisa com você?!

— Calma, deixa eu te contar. Já era tarde da noite quando eu comecei a andar no meio da rua da travessa. O asfalto de lá era o menos gasto que eu vi na minha vida. Não tinha nenhum carro nas calçadas ou nas garagens das casas. Parecia que não morava ninguém lá. As casas pareciam vazias. Todas escuras. Nenhuma com aquela maldita luz vinda da TV atravessando a janela. Mas depois eu descobri por quê.

Joe tomou seu bourbon de um gole e pediu outro ao dono do bar. Ele servia sozinho aquele pequeno boteco. Era um lugar agradável. Não tinha muito movimento àquela hora da noite. Podia-se conversar sem ser interrompido.

— No fim da travessa tinha um bar: “Boca do Belzebu”.

— Puuuta que pariu…

— É. Nome forte. Mas o lugar era simples que nem esse aqui. Quando eu vi a luz do bar de longe eu achei que todo mundo que morava na travessa estava lá. Mas o lugar tava tão vazio quanto o resto. Eu fui até o balcão e pedi uma cerveja de trigo, porque você sabe que eu não bebo destilado quando estou deprimido.

— Você é um masoquista intelectual, Joe. É quando você tá assim que você devia tomar uma garrafa de gim sozinho. Mas não, você quer continuar pensando nos seus problemas, e com a lucidez apurada que o pouco álcool te dá. Você é louco.

— Pronto?

— Pronto.

— Ok, então eu perguntei pro dono do bar, “por que não tem nenhuma luz saindo das casas dessa travessa? até parece que ninguém mora por aqui.”, e ele respondeu, “dormir e transar são coisas que se faz melhor no escuro.”

— Toma, cavalo.

— Na cara. Fechei meu bico e fui pra uma mesa. Tomei aquela garrafa em pouco tempo e pedi outra, o cara não parecia preocupado em fechar o bar. Toma esse whisky e pede outro logo, a melhor parte vem agora.

— Ok.

Mac tomou o scoth que estava pela metade e foi pegar outro no balcão. Acendeu um cigarro com o isqueiro de lá e voltou segurando ele na boca, com dois copos na mão.

— Trouxe outro bourbon pra você.

— Valeu, e pára de jogar fumaça na minha cara, filho da puta.

— Foi mal.

— Então. Eu tava lá olhando pro meu copo, aquela cor de mel maravilhosa da weiss.

— Aquilo é uma beleza.

— É sim. Tava lá olhando pro copo, tava até sorrindo, tinha até esquecido um pouco o que tava me deprimindo. Tateei no bolso e peguei meu maço de Marlboro. Só tinha um. Peguei meu isqueiro no bolso da camisa. Acendi o cigarro e dei umas boas tragadas. Deixei o isqueiro na mesa e me recostei mais na cadeira e fiquei fumando. Naquele momento eu já não sabia mais o que tava me afligindo. Mas aí ele apareceu.

— Quem, mano?

— Eu não sei de onde aquele cara saiu, Mac. A rua tava deserta e ele despontou na porta do bar. Do nada. Um cara enorme. Com uns 2 metros de altura. Ele não era forte, nem fraco, nem gordo, nem magro. O cara era GRANDE entende? O corpo dele todo era proporcional à altura.

— Entendi.

— Ele tinha um puta bigode de Leminski e tava com uma jaqueta de couro preto que parecia que ele mesmo tinha arrancado do boi. A jaqueta ficava pequena pra ele, Mac!

— Ah, cê jura?

— E, meu, os olhos do cara eram pretos que nem breu e ele parecia irritado. Com o cabelo curto bagunçado. Ofegando. Mas, mano, não dava pra dizer que o cara era feio.

— Como assim, Joe?

— O cara parecia um vilão de filme de velho oeste. Um vilão daqueles de Hollywood.

— Entendi, cê curtiu o cara.

— Curti o cu da sua mãe, caralho!

— Calma, Joe. Tô zoando, continua aí.

— Ele foi pro balcão e acho que falou alguma coisa. Eu não ouvi. Só ouvi o dono do bar dizendo, “você sabe que eu não vendo cigarros desde que me pegaram na lei antifumo, Kasparov. Sinto muito.”

— Russo sem vergonha!

— Puta merda, nem me fale. O cara ficou parado uns 10 segundos olhando pro dono do bar e virou pra mim. O russo tava furioso, Mac. Veio andando na minha direção sem tirar o olho do meu e eu não conseguia baixar a cabeça. Fiquei olhando pra ele com o meu cigarro na boca, paralisado.

— Nossa, Joe…

— É… Ele olhou pro maço vazio de Marlboro vermelho na mesa e olhou pro cigarro na minha boca e eu conseguia me mexer de novo, mas não movi um dedo. Uma ponta de cinza caiu do cigarro e queimou minha camisa.

Joe apontou para uma mancha marrom escura na camisa branca fechada no peito que ele vestia. Tomou seu whisky já com as pedras de gelo muito pequenas e aproximou de si o copo que Mac havia lhe trazido do balcão, esse sem gelo.

— Cacete…

— O maldito continuava olhando pra mim e quando eu notei ele já tinha tirado uma faca do cu, porque eu não sei de onde ele tirou aquilo.

— Uma faca?

— É! Uma daquelas malditas facas que a gente vê em tabacarias do lado das estrelas ninja e eu juro por deus que eu nunca achei que alguém compraria uma porcaria daquelas.

— Isso é coisa de idiota.

— Mac, o cara era um psicopata. Ele apontou um dedo pro meu isqueiro em cima da mesa e eu o peguei tremendo e entreguei na mão dele. Adivinha pra que ele queria o isqueiro, Mac.

— Puta que pariu, fala logo.

— Aquele desgraçado abriu meu isqueiro e começou a esquentar a lâmina da faca com a chama. Ele ficou muito tempo assim, mano, e acho que na proporção que a faca ia esquentando eu ia gelando. Eu tava desesperado, mas continuei parado lá, não tinha pra onde correr, e do jeito que eu tava eu não queria mesmo correr, naquela hora seria bom se ele acabasse comigo porque eu lembrei de todas as merdas que estavam acontecendo e não era má idéia dar um fim a elas.

— Não fala isso, Joe.

— Eu tava pensando nisso na hora, mano. Mas você não vai acreditar no que ele fez depois.

— Pode falar, Joe. Eu não vou beber mais nada hoje, quero lembrar disso amanhã de tarde.

— Acho que você vai lembrar disso por muito mais tempo.

— Então conta logo.

— O cara colocou o isqueiro na mesa e espalmou a mão no canto dela. Mexeu os dedos de modo que ficasse só o dedo médio em cima da mesa. Aquele dedo devia medir uns 15 centímetros, Mac, e era grosso. Como eu disse: proporcional. E, mano, ele encostou a faca na base dele. Eu ouvi o “tssss” da pele tostando e deu pra ver os pelinhos do dedo queimados.

— Ai…

— Ele ergueu a faca na altura da cabeça e desceu ela com tudo. TAW!

Joe estava ilustrando o movimento com a própria mão imitando uma lâmina golpeando seu dedo na mesa. Mac, puxou o ar entre os dentes e franziu todo o rosto.

— Sssssssssss…

— O dedo dele foi um pouco pra frente na mesa, solto, com a força do golpe, e quase não sangrou. Aquele maldito deixou a faca pressionando o toco de dedo que sobrou “tsssssssssssssssssssssss” e quando ele tirou a faca ela tava com uma mancha feia na lâmina e o dedo do cara tava cauterizado.

— Caralho, que maníaco. Pra que isso, velho?!

— Ele pôs a faca na mesa, Mac, e pegou o dedo médio cortado. Virou ele na mão de um lado pro outro e sabe o que aquele psicopata fez? Ele mordeu a ponta do dedo, Mac! Arrancou a unha e a ponta da falangeta com uma mordida, como quem morde um maldito charuto! E você sabe o que ele fez?! Ele segurou o dedo entre os dentes com as digitais pra cima praquela merda não dobrar! Ele segurou o dedo em riste na boca. Pegou meu isqueiro e começou a queimar a falange! Deixou o isqueiro aberto queimando aquela pele fresca e começou a tragar o dedo como se fosse um maldito Havano!

— Catso!

— Ele chupava o dedo ficando cada vez mais irado e bufava mais que a besta cigana. E o dedo começou a crepitar na chama do isqueiro. A pele começou a soltar uma fumaça de cheiro horrível e o sangue coagulava cada vez mais depressa, mas a ponta tava queimando mais e mais forte.

— Meu deus.

— Quando parecia que ele ia explodir de cólera ele deu uma tragada com toda a força que tinha, apertando os olhos, e encolheu os ombros de satisfação. Ele segurou o dedo entre os dedos… caralho, ele fez mesmo isso… soltou uma baforada de fumaça rubra pra cima e arreganhou os dentes sujos de sangue pra mim como um maldito cachorro com raiva. Eu me levantei rápido da cadeira. Derrubei ela com a adrenalina. Ele olhou pra mim por uns segundos, segurou o dedo entre os dentes de novo, jogou meu isqueiro perto do meu copo na mesa e saiu pela porta do bar, fumando o dedo. Ele esqueceu a faca na mesa. Eu olhei pro balcão e o dono não estava lá. Olhei pra mesa e vi meu cigarro apagado e eu nem lembrava mais quando ele caiu da minha boca. Aquele foi meu último Marlboro. Eu o deixei lá junto com a faca, a garrafa e o copo de cerveja. Peguei meu isqueiro e saí, esquecido da cara velha do taberneiro. Saí daquele lugar tremendo, sem olhar pra trás. Acho que nunca andei tão rápido em toda a minha vida.

Mac olhou para Joe um bom tempo ainda depois que este parou de falar. Seu cigarro pendia de sua boca ainda aceso, metade dele cinzas que teimavam em não cair. Ele deu uma última tragada no cigarro e o segurou com os dedos, apontando-o para Joe:

— Aquele psicopata devia ter fumado o SEU dedo, Joe. Aí você ia aprender a me ouvir.

— Eu acho que sou sortudo, não?

— Você é um filho da puta, Joe. Você é um filho da puta.

Joe concordou com a cabeça e Mac apagou seu cigarro no cinzeiro com o rosto assombrado. Seria seu último Pall Mall.

Ateu, anarquista, contraculturista, polemista e marginalista, acho que sou tudo o que o Hippies & Beatniks preza e que os conservadores desprezam. Sendo antigamente um poeta hiperinspirado e atualmente um estudioso de história da religião, não vou mostrar nenhuma dessas fases no momento. Separei uma série de quatro contos sobre o cotidiano fantástico que pretendo postar aqui no blog como um portfólio para não chocar tão depressa os desavisados. E esse foi um deles.

Espero que tenham gostado e muito obrigado pela atenção dos que leram até este ponto.

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