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Ele não fumava

Havia milhões de palitos de fósforo espalhados pelo chão de pedra suja da praça. Parecia que todos os habitantes da cidade iam ali para fumar seus cigarros, bagulhos, charutos, e que nenhum deles tinha um isqueiro e se pareciam mutuamente asquerosos demais para que alguém quisesse acender seu cigarro na chama do cigarro de outra pessoa. Há anos não se via um gari por aquelas bandas. Tudo ali parecia lembrança visual e você só não pensava que estava sonhando com o passado porque de vez em quando via coisas insanas, como um garoto de 10 anos dançando techno como um índio do Equador:

— Curtiu, hein, mano?

O moleque nunca deixava os dois pés juntos no chão, intercalava batendo e erguendo eles à altura do joelho, chutando o ar. Era quase como o Chaves empolgado. Seu amigo observava sentado em um banco, segurando uma bicicleta pelo selim.

— Lindo… Você tá parecendo um babuíno no cio!

— Babuíno no cio é a sua avó!

— A sua, aquela cafetina.

— O que é cafetina?

— É quem ensina sua mãe a trabalhar.

— Ah tá… se liga nessa então. – a música do seu celular mudou para um psy trance e o garoto passou a remexer cada pedaço do corpo.

— Cê tá brincando de mímica, mano? Agora você é uma enguia elétrica, acertei?

— Vai tomar no cu.

— Ô, choque! – chamou um outro jovem de longe, em uma bicicleta.

— Tá chamando você, enguia.

— Cala a boca!

— Choque! Bora logo, caralho, a gente ainda tem que pegar aquelas chinas hoje, lembra?! – gritou de novo o rapaz.

— Guentaí, Paulão! Sobe aí, moleque.

— Moleque é o caralho.

— Cê é embaçado, hein, mano? Sobe logo aí, porra!

E os dois desceram pela rua lateral em direção às chinas.

Um monge budista surgiu de uma das ruas e foi em direção ao centro da praça, onde estava o memorial de inauguração. Ele tinha a cabeça raspada e vestia uma única peça de roupa clara manchada que vinha dos seus ombros e ia até os joelhos, cobrindo seu corpo magro. Trazia um headphone na cabeça, cobrindo seus ouvidos com Clarence “Gatemouth” Brown. O bloco de concreto tinha a altura de um homem. O monge subiu nele de um salto, e se equilibrou em pé formando um 4 com as pernas e juntando as mãos espalmadas. Fechou os olhos e assim ficou, ouvindo o blues e meditando, perfeitamente imóvel.

Manos não gostam de blues, mas um deles tinha uma coleção de cds, The Blues Collection, que era seu tesouro, guardado em uma caixa debaixo da sua cama, que ele havia ganhado de um tio que morava em Louisiana e era um artista de rua – gaitista – muito famoso por lá. Ele era apaixonado por blues e queria ser Lightin’ Hopkins. De fato havia comprado um óculos escuro no camelô para se parecer mais com o “gato preto”. Este rapaz agora discutia com dois amigos em um banco próximo ao centro da praça.
— Juro, cara, não sei que graça você vê nessa música. – disse um de seus amigos, um rapaz de nick Orelha.
— Oreba, você não sabe de nada, mano! Não conhece nada além desse rap importado, que chega aqui fedendo a merda, e quer criticar o blues! Você devia ouvir, Carol, ia saber do que eu estou falando.
— Que bluuuss?!… – respondeu Carol, a amiga que estava na discussão, sentada do encosto do banco, com os pés no acento – Vê lá se eu vou ouvir “bluuuss”, olha a minha cor, Botega!
— Justamente, Carol, olha a sua cor! – respondeu Botega, que tinha que se esforçar para se lembrar de um bluesman branco. – Blues de respeito só negro sabe fazer.
— Isso não importa, Botega. – interveio Orelha – Eu continuo achando esse seu som muito caipira.
— Foi mal aí, metropolitano.
— Vamos parar, caralho! – gritou Carol – Vocês já viram aquele cara por aqui? – ela apontava para o monge, que já meditava há uma hora.
— Eu já vi ele uma vez. Ele estava daquele mesmo jeito.
— Quero ver de perto.
Ela pulou do banco e andou em direção ao monge. Os outros a seguiram.
— Por que ele faz isso?
— Ele deve estar querendo bater um recorde.
— Ele deve estar meditando – disse Botega – queria saber o que ele está ouvindo.
— Deve ser alguma música new age idiota. – disse Carol.
O monge não se abalava, não estava sequer escutando o que diziam. Estava tão concentrado que talvez não ouvisse nem mesmo o Memphis Slim solando nos seus ouvidos.
— Mano, isso é muito idiota.
— Concordo.
— Vocês deviam deixar o cara em paz, vamos sair daqui.
— Dá um dinheiro pra ele então, já que se importa tanto. Ele tá precisando de uns pano novo pra vestir.
— O mano não tem nem chinelo, doido – observou Carol.
— Não vou tirar o cara da paz pra dar dinheiro pra ele – respondeu Botega.
— Então enfia no cu. Vamo embora. – disse Orelha.
E seguiram por uma das ruas até muito longe.
— Vou deixar a Carol na casa dela, Botega. Se da minha casa der pra ouvir aquele seu som de viado quando eu chegar, eu te pego amanhã.
— Vá a merda… – disse Botega, entrando na sua casa, que era vizinha da de Orelha. Puxou sua caixa debaixo da cama e pegou um cd da sua coleção, B. B. King – The King of Blues, colocou no seu rádio, com o volume em boa altura e se deitou para ouvir o rei: “The Thrill Is Gone…”

O monge ficou na sua meditação até o blues acabar. Já eram 3 da manhã quando um homem atirou no seu pescoço, de baixo para cima, e o derrubou para lhe tomar o Ipod. Por algum motivo inexplicável, o monge ainda se encontrava na mesma posição em que meditava quando foi encontrado por um gari na manhã seguinte.
— Olha a paz no rosto desse rapaz.
— É como se ele estivesse sorrindo sem estar.
— Esse buraco no pescoço dele tá horroroso, será que ninguém viu isso?!
— Cala a boca, Agenor! Todo mundo viu que o cara tá morto.
— É – disse o gari – e se vocês me dão licença, eu tenho que fazer meu trabalho.
— O que você vai fazer?!
O gari pegou o corpo do monge, com certa dificuldade, pois este se encontrava duro com as pernas formando um 4 e as mãos espalmadas juntas, e o colocou dentro do seu carrinho de lixo com um grande saco preto.
— Cara! Você tá maluco?
— A gente tem que chamar a polícia!
— Você não pode fazer isso!
— Quietos! – disse o gari, cuspindo no chão e olhando cada um daqueles cidadãos assustados com um rosto feroz – EU limpo o lixo que VOCÊS fazem. Vocês mataram esse mendigo, e eu vou levar ele comigo. É assim que acontece. Não é como se vocês se importassem. Ninguém se importa. Vocês nunca olharam na cara desse rapaz, nunca deram comida pra ele, e agora o matam com um tiro e eu tenho que enterrar ele no aterro sanitário da cidade. VOCÊS são responsáveis por isso. Então calem essas malditas bocas e me deixem limpar sua sujeira.
O gari deu o nó no saco e fechou a tampa da lata no carrinho. Seu serviço na praça tinha acabado.
Ele já ia embora quando um cidadão disse:
— Você deveria era varrer esses fósforos do chão…
E o gari, sem olhar para trás, se deu ao trabalho de responder:
— Foda-se, isso é problema de vocês! Parem de fumar, seus filhos da puta.

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